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Imigração Alemã no Brasil

sábado, 22 de maio de 2010

Razões da Emigração na Alemanha

Quando se fala em imigração alemã há 170 anos, é bom pensar como eram as coisas naquele tempo, na Alemanha, no Brasil, no Rio Grande do Sul.

O Brasil tinha meia dúzia de centros notórios, como Rio de Janeiro, a capital do recém criado Império Brasileiro; Salvador, antiga capital; Recife, São Paulo e núcleos mais provincianos como Porto Alegre. O Brasil era movido pelos escravos. De seu suor, sangue e lágrimas vivia a jovem nação. Açúcar, gado, cacau, pedras preciosas, tudo nascia de suas mãos. E como eles fossem em maior número do que os homens livres, é provável que esse fato levasse o Governo a pensar em imigrantes de outra categoria. O Rio Grande de São Pedro tinha Porto Alegre como capital. Ainda marcavam presença Viamão, Rio Pardo, Pelotas e Rio Grande, para citar apenas alguns núcleos. O gado constituía a grande riqueza, indelevelmente ligada à História do extremo sul. Aqui também o braço servil era uma realidade.

“O começo na mata virgem.” – Imagem pertencente ao Museu Histórico Visconde de São Leopoldo
Falar na Alemanha da época requer registrar que ela não existia como unidade nacional. Havia reinados, principados, ducados, independentes entre si. O que identificava a todos, e daí falarmos em Alemanha, era a língua. Na Idade Média, predominava os dialetos. Ainda hoje a Alemanha é rica em dialetos. Com Lutero ao traduzir a Bíblia para que os alemães pudessem lê-la, criou-se a língua alemã ou simplesmente, o alemão. Ao uniformizar o idioma, havia um elo comum entre todos os departamentos políticos vindos da Idade Média. Logo, ao falarmos em imigrantes da Alemanha, antes de 1871, ano da unificação formalizada por Bismark, referimo-nos às pessoas de fala alemã. Os passaportes da época registram a origem das pessoas como sendo da Prússia, de Schleswig-Holstein, Renânia, Hesse ou Pomerânia. Como todas falassem a mesma língua, a História só registra “alemães”. Mas isso não tira o mérito da imigração entre nós.

Agora podemos perguntar – o que leva uma pessoa a deixar seu lugar de nascimento?

Ora, com nossos imigrantes alemães houve, como em qualquer ser humano, o desejo natural de progredir, a visualização de novos horizontes em razão de situações existentes em sua terra natal.

Na família alemã vamos encontrar o “Erbrecht” (morgadio), direto hereditário do filho mais velho. Como não houvesse mão-de-obra à disposição, eram comuns famílias com oito, dez ou mais filhos. A propaganda brasileira então feita na Alemanha deve ter produzido os efeitos desejados, já que muitos viam a grande oportunidade de terem suas terras próprias. E muita terra! Enfim, sessenta ou setenta hectares era muita terra. Não seria hora da realização da utopia de cada um? Outrossim, é preciso considerar que, ao tempo do início da imigração, a Alemanha saíra das Guerras Napoleônicas, que causaram uma devastação fácil de imaginar: lavouras destruidas seguidamente, moradias em chamas, mortes, dizimação da juventude masculina, a soldadesca deixando seus restros junto ao elemento feminino… Quanto aos renanos, o maior número de imigrantes, suas terras sempre foram palco de lutas travadas ao longo do rio Reno, fato que pode explicar sua inquietação. Mais. A emigração começou em 1824, setenta anos depois da invenção da máquina a vapor, na Inglaterra, cujos efeitos técnicos começavam a fazer sentir na Europa continental. A máquina dispensa mão-de-obra e a previsão de desemprego para tanta gente deve ter exercido sua influência sobre a emigração. Depois veremos que os artesãos, começando a perder suas oportunidades na Alemanha, foram aqui muito importantes, porque lançaram as bases da industrialização. Além desses fatores gerais, em cada região de onde provieram imigrantes, com destaque para a Renânia, Vestfália e Pomerânia, havia fatores locais a influir na saída de seus filhos.

Razões da imigração no Brasil

Por que alemães vieram ao Brasil?

Quem sabia na Renânia que o Brasil existia?

Onde ficava esse Brasil?

Nos meios políticos e governamentais certamente o Brasil era conhecido porque a filha de Francisco II, último Imperador do Sacro Império Romano de Nação Alemã, ao mesmo tempo, Francisco I, primeiro Imperador da Áustria, da Casa dos Habsburgos, era casada com o jovem Imperador Pedro I, da Casa de Bragança. O nome dessa mulher ressoou e ainda ressoa no Brasil, mormente no sul, em virtude da imigração alemã. A arquiduquesa Leopoldina Carolina Josefa contraiu matrimonio com D. Pedro, apenas príncipe, no dia 13 de maio de 1817, por procuração, em Viena. Pelas descrições, Leopoldina não era um “monumento” de beleza, mas seria simpática, cabelos louros, olhos azuis, atenciosa, inteligente, cativante. Ela conquistou os brasileiros, que a consideravam uma “mãe”, como registram os livros. E quanto mais os brasileiros ficaram conhecendo seu Imperador, com todos seus pecados, tanto mais Leopoldina subia no conceito deles. É fácil imaginar que o fato de uma princesa germânica ser a Imperatriz do Brasil tenha dado ênfase à imigração. Leopoldina sabia que sua antepassada, Imperatriz Maria Teresa, havia colonizado terras ao longo do Danúbio, para impedir o avanço dos turcos em direção ao centro da Europa, com ameaça ao território austríaco. O Brasil vivia uma situação parecida no sul. Ali constantemente havia invasões e atividades bélicas para manter as fronteiras brasileiras. A colonização mais intensa daquele pedaço de terra poderia ajudar a manter o equilíbrio geopolítico. Na verdade, os açorianos, então “donos” do Rio Grande, eram, também, os “eternos vigilantes”. Afirmava-se que dormiam com um olho só; o outro estava sempre aberto para ver o inimigo chegar.
Colonizar o sul. Mas onde buscar os colonizadores?

É claro que não viriam portugueses, de quem o Brasil acabara de se emancipar. Espanhóis, nem pensar, porque eram os inimigos naquela região. Franceses também não, porque um dia haviam invadido o Rio de Janeiro, fundando a “França Antártica”. Ingleses também não, porque igualmente haviam tentado instalar-se no Brasil. Holandeses fora de cogitação, pois estiveram 24 anos no Nordeste. Alemães. Leopoldina era alemã. A Prússia, que depois integraria a Alemanha, tinha um exército reconhecido e admirado por D. Pedro I, cujas tendências militaristas era conhecidas. O Brasil precisava de soldados, já que os portugueses, com a Independência, haviam voltado para Portugal. Quem defenderia o Brasil? D. Pedro I interessou-se por mercenários alemães e provavelmente, para não ser notado esse “movimento militarista”, passou a contratar também colonos que ocupariam as terras sulinas.

Para proceder adequadamente, foi enviado à Alemanha Jorge Antônio von Schäffer, preposto do Império. A missão de Schäffer, embora exitosa, teve muitos percalços. A Europa estava impedindo que soldados saíssem como mercenários. Quem desejasse emigrar, deveria renunciar à nacionalidade e apresentar provas de que o país destinatário lhe daria nova nacionalidade. Os países europeus queriam prevenir-se contra futuras responsabilidades.

O governo brasileiro oferecia: passagem paga; concessão de cidadania; concessão de lotes de terra livres e desimpedidos; suprimento com primeiras necessidades; materiais de trabalho e animais; isenção de impostos por alguns anos; liberdade de culto.

No Brasil há uma expressão popular que diz: “Quando a esmola é demais o pobre desconfia”. É muito possível que alguém considerasse a oferta grande demais. Isso iria confirmar-se mais tarde, porque chegar ao Rio Grande, mais especificamente a São Leopoldo, e receber um lote de terras a 30 ou 40 quilômetros distantes da sede, sem estradas, sem escolas, na mata virgem, deve ter provocado muitas lágrimas. Com relação à liberdade de culto oferecida – o Governo deveria prever que entre os imigrantes havia luteranos – era inconstitucional, porque pela Constituição Imperial de 1824 a religião católica era oficial. Outros credos poderiam ser praticados, em caráter particular, em casas, sem aparência exterior de templo.

A primeira leva de imigrantes

Os imigrantes contratados por conta do Governo brasileiro por Jorge Antônio von Schäffer na Alemanha e componentes da primeira leva, depois de passarem pelo Rio de Janeiro, chegaram a Porto Alegre em 18 de julho de 1824. Seguindo instruções recebidas, o Presidente da Província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, encaminhou os imigrantes para a Feitoria desativada à margem esquerda do Sinos.

É fácil imaginar a viagem Sinos acima. Uma vegetação luxuriante, com árvores enormes e flores em profusão; muitos animais povoando as margens: jacarés, capivaras, ratões do banhado, fuinhas e, sem dúvida, alguma cobra deitada preguiçosamente sobre um tronco caído na água. No céu bandos de aves a fazerem seu balê ao vivo e em cores; garças, biguás, um mundo de pássaros coloridos. Numa palavra: um encanto! Um mundo novo à espera de quem fizera uma viagem de 12.000 quilômetros em busca de uma nova pátria. Do rio, carretas de boi levaram os imigrantes até a Feitoria. era o dia 25 de julho de 1824, um domingo, data da fundação do primeiro núcleo de colonização alemã no sul do Brasil, que viria a transformar-se na cidade de origem alemã no Estado, a data é festejada em todos os quadrantes.

A primeira leva de imigrantes era formada pelas seguintes pessoas, nun total de 39: Miguel Krämer e esposa Margarida, católicos. João Frederico Höpper, esposa Anna Margarida, filhos Anna Maria, Christóvão, João Ludovico, evangélicos. Paulo Hammel, esposa Maria Teresa, filhos Carlos e Antônio, católicos. João Henrique Otto Pfingst (en ?), esposa Catarina, filhos Carolina, Dorothea, Frederico, Catarina, Maria, evangélicos. João Christiano Rust (Bust?), esposa Joana Margarida, filha Joana e Luiza, evangélicos. Henrique Timm, esposa Margarida Ana, filhos João Henrique, Ana catarina, Catarina Margarida, Jorge e Jacob, evangélicos. Augusto Timm, esposa Catarina, filhos Christóvão e João, evangélicos. Gaspar Henrique Bentzen, cuja esposa morreu na viagem; um parente, Frederico Gross; o filho João Henrique, evangélicos. João Henrique Jaacks, esposa Catarina, filhos João Henrique e João Joaquim, evangélicos.

Essas 39 pessoas, 6 católicas e 33 envagélicas, são as fundadoras de São Leopoldo, nome e lugar então inexistentes, porque tudo se resumia à Feitoria do Linho-Cânhamo.

É fácil imaginar o quadro na Feitoria com a chegada dos alemães.

Um lugar nunca imaginado, gente de língua desconhecida e costumes estranhos. E por que tudo tinha um ar de abandono? Se a isso juntar-se um dia de inverno no Vale do Sinos com frio, cerração e umidade, a chegada deve ter causado impacto. Mas aquele dia ajudou a fazer um novo Rio Grande, razão para dividir-se sua História em “antes” e “depois” de 1824.

Na parte econômica, podemos referir que a produção agrícola em poucos anos floresceu, a ponto de a colônia abastecer a capital, Porto Alegre. Mais: ao lado do trabalho agrícola, os alemães também eram Handwerker, isto é, artesãos. Trabalhavam a madeira, o ferro, o couro, as fibras. Desse artesanato, na Alemanha, provieram muitos nomes próprios. Assim, Schmidt é ferreiro; Schuster, sapateiro; também Schuhmacher, sapateiro; Weber, tecelão; Zimmermann, carpinteiro; Schreiner, marceneiro; Schneider, alfaiate; Wagner, construtor de carroças; Müller, moleiro. Com seu trabalho, os artesãos formaram as bases da industrialização no Rio Grande. Não é para menos que o Vale do Sinos transformou-se numa extraordinária concentração industrial. Muitas grandes fábricas espalhadas pelas cidades de origem alemã começaram com um verdadeiro artesanato, em pequenas casinhas de porta e janela, onde tudo era feito à mão.

Na parte cultural merecem citação muito especial as escolas. Não as encontrando aqui, os colonos as criaram para ensinar as crianças a ler, escrever e fazer contas. Assim surgiram as escolas de comunidade, em alemão Gemeindeschule. Não havia picada, lá no fundo do mato, onde não funcionasse uma escolinha. As crianças vinham de longe, até de um raio de 4 ou mais quilômetros. Algumas vinham a cavalo. O material de aula era simples: a lousa, em alemão Tafel; o lápis de pedra, em alemão Griffel, e mais tarde a cartilha, em alemão Lesebuch. Aumentadas em número a cada ano e espalhadas com as novas levas de imigrantes em novos espaços, essas escolas garantiram a luz das letras a milhares e milhares de pessoas. Por volta de 1938 eram mais de mil escolas coloniais. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra o menor número de analfabetos na “colônia alemã”.


Fotografia tirada no “Atelier de Photographia de Barbeitos & Irmão” – Porto Alegre
Ainda na parte cultural, podemos dizer que os alemães têm um caráter muito associativo, isto é, gostam ou até precisam viver em grupos. O clima frio deve ter sua influência sobre tal comportamento. Já nos climas quentes as pessoas andam soltas, fora de casa, sem o aconchego da lareira. A intensa vida em família e os encontros nos locais de lazer, nos clubes, fez surgir grupos de música, de teatro, de canto. Assim o canto coral, tão intenso em nosso Estado, a ponto de haver uma Federação de Coros, é uma das grandes heranças alemãs. Não há vila de origem alemã onde não se cante em grupos masculinos, femininos ou mistos. No mínino, nas comunidades religiosas há um pequeno coro que abrilhanta os cultos, acompanha enterros ou alegra as festas de igreja.

Fonte: 1824 ANTES E DEPOIS – O Rio Grande do Sul e a imigração alemã
Texto: Telmo Lauro Müller

fonte: http://www.colono.com.br/asp/entrada_historia.asp