26 de agosto – aniversário da Cidade de Campo Grande – (MS)

O MUNICÍPIO DE CAMPO GRANDE

HISTÓRICO

Rosário Congro

Em 1872, a quase deserta região meridional da então Província de Mato Grosso, compreendia, apenas, na vastidão dos seus trezentos mil quilômetros quadrados, aproximadamente, as vilas de Miranda, outrora presídio do mesmo nome, fundado em 1797, e Santana do Paranaíba, além das povoações de Nioaque e Coxim.

A invasão paraguaia, levando às poucas e longínquas fazendas, como por toda a parte, o saque, o incêndio, a morte, os horrores da guerra, em fúria selvagem, devastara grande parte do imenso distrito de Miranda, dando lugar a que nas suas planícies e nos seus montes e nos seus rios, se realizasse a dolorosa trajetória da coluna de heróis e de mártires comandada pelo coronel Camisão e, nos Dourados, o sacrifício homérico de Antônio João.

Expulso o invasor do solo sagrado da pátria, morto Solano Lopes, o tirano, acuado nas cordilheiras de Aquidaban, voltavam, para a reconstrução dos seus penates os que, conseguindo escapar à sanha do inimigo sanguissedento, se haviam refugiado nas alturas da serra de Maracaju.

Foi então que José Antônio Pereira, velho sertanejo mineiro, já sexagenário (**), deixando o seu arraial de Monte Alegre, nas proximidades de Uberaba, se fez com destino a Mato Grosso com seus filhos Antônio Luiz e Joaquim Antônio (#) e quatro “camaradas”, em busca de terras devolutas para lavoura e criação.

Pelo entardecer de 21 de junho, chegava a pequena comitiva à confluência dos córregos mais tarde denominados “Prosa ” e “Segredo”, no lugar onde está situado, hoje, o Matadouro Municipal, ponto escolhido para o pouso daquele dia e depois definitivamente adotado.

Em breve ali se ergueu a morada dos intrépidos viajores: um pequeno rancho coberto com palmas de “uacury”, célula primordial que foi da progressista cidade de hoje, mui justamente chamada – a Pérola do Sul.

Não tardou a derrubada pelas imediações, o fumo da queimada em pouco se elevou e, em tempo curto, tremulavam, à viração constante, as flâmulas verdes e promissoras da primeira roça.

Por entre o milharal, outros cereais cresciam, num viço que atestava a feracidade extraordinária do solo.

O primeiro contratempo, porém, não se fez esperar: extensa e escura nuvem de gafanhotos, pousando, dera cabo da luxuriante plantação, mas, o espírito forte, inquebrantável de José Antônio Pereira, caldeado nas vicissitudes da vida, não se abateu ante a destruição produzida pelos terríveis insetos.

Distava doze léguas o morador mais próximo, proprietário de uma fazenda que a invasão inimiga fizera abandonar por alguns anos, tornando-a tapera, o gado perdido, internado nas selvas, volvido feroz.

Era ali que ia suprir-se Pereira da sua principal alimentação, que era a carne dos vacuns bravios comprados a 15$000 e abatidos a tiros, em verdadeiras caçadas.

Com a carne, para cuja conservação a secagem substituía a absoluta carência de sal, a caça, que era abundante, o mel recolhido nas matas e morangas e abóboras, não atingidas pela praga dos ortópteros, constituíram o passadio daqueles valentes sertanejos.

Bem fácil é imaginar a tristeza que aquelas almas envolvia, quando as sombras da noite desciam sobre a terra. Um fogo no terreiro, sons plangentes de uma viola tangida com sentimento, uma cantiga dolente repassada de infinita saudade, depois… a nostalgia, o silêncio profundo do deserto!

E, cortadas de quando em vez pelo rugido do jaguar, como eram longas as noites, sem o canto do galo anunciando o clarear do dia, e vazias as manhãs, sem o mugir do gado!

No ano seguinte, José Antônio Pereira regressou a Monte Alegre, deixando o seu rancho e a sua lavoura incipiente entregues a João Nepomuceno, com quem se associara.

Nepomuceno era caboclo de Camapuã, um arraial que morria, situado na antiga Fazenda Imperial do mesmo nome, nas cabeceiras do Coxim, e que ali aparecera, “de muda” para Miranda, quebrando a monotonia do ermo com dois carros de bois que o peso da carga fazia chiar nos eixos.

Só em 1875 voltou José Antônio, trazendo sua família composta de sua mulher Maria Carolina de Oliveira, seus filhos Antônio Luiz, Joaquim Antônio, Francisca, Persiliana, Constança, Anna, Rita, Maria Nazareth e três tutelados, e mais as de Manoel Gonçalves Martins, João Pereira Martins, Antônio Ferreira e Joaquim Olivério de Souza, além de muitos agregados.

Em busca, não mais do desconhecido, mas de uma região habitada apenas por tribos selvagens e animais ferozes, se pôs a caminho a caravana dos modernos bandeirantes, dos audazes pioneiros da civilização em tão belas, porém incultas paragens.

Compunha-se ela de 62 pessoas ao todo, com seis (##) pesados “carros mineiros”, nos quais vinha não pequena provisão de tudo quanto pudessem necessitar, além de sementes diversas e mudas de cana-de-açúcar, café e outras plantas, devidamente acondicionadas.

Era seu guia, por mais curtos caminhos, o prático Luiz Pinto Guimarães, cuiabano, então residente em Uberaba, e seis longos meses foram consumidos nessa penosa e arriscada empresa, verdadeira cruzada em marcha para a solidão.

Ao transpor a comitiva as águas do Paranaíba, muitos dos seus membros foram acometidos de “matadera”, uma febre “maligna”, aniquiladora até a morte, endêmica naqueles sítios.

Esta desagradável ocorrência, obrigou José Antônio à demora de um mês e meio na vila de Santana.

Espírito eminentemente religioso e fervoroso devoto do taumaturgo de Pádua, o velho mineiro, a despeito da aplicação de “raizadas” aos enfermos, no que era experimentado, concentrou-se um momento e, cheio de fé, balbuciou a piedosa promessa de erigir, no ponto do seu destino, uma capela em glorificação a Santo Antônio.

Fundos sulcos de simpatia deixou José Antônio Pereira entre os habitantes de Santana, dos quais conquistara estima e gratidão, pelas curas desinteressadas que ali fizera, quando, sem que tivesse perdido um só dos seus doentes, se pôs de novo a caminho dos admiráveis campos de Maracaju.

A 14 de agosto chegou o comboio dos destemidos viajores ao termo da sua jornada, não mais encontrando Nepomuceno, que fora substituído, na posse das benfeitorias realizadas, por Manoel Vieira de Souza, chegado meses antes em busca, também, de terras devolutas, e a quem tudo vendera por 300$000.

Não tardou que pela margem direita do córrego depois chamado “Prosa”, se alinhassem os ranchos dos novos moradores.

Os dias corriam felizes para aqueles abnegados povoadores do sertão, longe dos centros populosos onde a civilização oferece todo o conforto da vida moderna, mas onde a flor do mal viceja enganadora.

A cornucopia de Ceres espalhava pelos habitantes do povoado nascente os abundantes frutos da gleba feracíssima.

À noite, em volta ao fogo no terreiro, contentes do trabalho, espoucavam eles em canto e riso e danças, em alegria, enfim, aos sons cadenciados das violas, pandeiros e concertinas, o que constituía um regalo para os pacíficos “coroados”, atentos espectadores por entre os ramos da mata fronteira, na margem oposta, e que se punham em fuga ao serem pressentidos.

Corria o ano de 1879 e era chegada a vez de José Antônio Pereira cumprir o seu voto.

Preparados os esteios, de rígida aroeira, e sob a invocação de Santo Antônio do Campo Grande, em referência às vastas campinas visinhas, levantou-se em breve a capela, construída de taipa e coberta de palmas, bem como o tosco e alto cruzeiro que ainda se ostenta no adro.

Não descançou, porém, enquanto a não viu coberta de telhas de barro, indo ele mesmo buscá-las ao abandonado Camapuã, distante trinta e cinco léguas, das ruínas de um templo centenário ali erigido pelos jesuítas, em época remota.

Tempo depois o padre Julião Urchia, vigário de Miranda, sagrando-a, celebrava o sacrifício da primeira missa ouvida sob o seu teto, e nela realizava o batismo de muitas crianças nascidas no arraial e também o consórcio de Antônio Luiz Pereira com D. Anna Luiza Pereira, filha de Manoel Vieira de Souza.

Para comemorar tão auspicioso acontecimento se fazia necessário, imprescindível mesmo, que um festivo repique elevasse aos céus, em hosanas, os seus metálicos sons.

Um recipiente de ferro batido, então, suspenso a uma trave, tangido por improvisado sacristão, acordou os ecos em alegre bimbalhar…

José Antônio dotou a ermida, logo depois, de um pequeno sino mandado adquirir em Corumbá, e a gente boa e simples do povoado, ao toque do sagrado bronze, reunia-se para as rezas em coro, cantadas a Deus.

Em 1888, recebia a capela um outro sino, dádiva de João Pereira Martins, e são os que ainda hoje, vibrando, chamam os crentes à oração do dia.

Amiudadamente, o velho cura de Miranda, de Nioac depois, visitava a povoação, realizando casamentos, batizados e festividades religiosas.

Os córregos, àquele tempo, tiveram também as suas pitorescas denominações: – originaram-se elas, para o que rola as suas margens, em pequenos saltos, das elevações de Leste, na loquacidade dos moradores, reunidos a miúde à sua margem, “ferrados na prosa” em costumado e aprazível ponto, sob a copa enorme de uma figueira brava, e, para o que tem as suas cabeceiras nos espigões do Norte, por não ter João Pereira Martins “guardado segredo” de ocultos intuitos de Joaquim Olivério, revelação que teve no lugarejo a retumbância de seu primeiro escândalo.

No local da atual praça Municipal, construiu-se naquele mesmo ano o irregular cercado do pequeno cemitério, mais tarde ampliado e transferido por José Antônio Pereira, verdadeiro patriarca, para a encosta de Oeste, onde ainda existe, em abandono, e do qual se descortina o belo panorama da cidade.

Nesse modesto campo-santo, tomado pela capoeira, jaz, esquecida, a cova rasa de José Antônio Pereira, falecido a 8 de janeiro de 1910 (+).

A enorme extensão das terras não ocupadas, a sua ótima qualidade para cultura e criação e, sobretudo, o clima ameníssimo, elementos seguros de prosperidade, fizeram a atração de inúmeras pessoas, vindas não só de Minas, como de São Paulo, Rio Grande do Sul e outras províncias. (…)

fonte: http://www.campograndems.net/historia_congro.html

BIBLIOGRAFIA:

1. CONGRO, ROSÁRIO.: O MUNICIPIO DE CAMPO GRANDE – ESTADO DE MATTO GROSSO. Publicação Official, 1919.

2. : PROSA – COLETÂNEA. Artes Gráficas Editora Unificado, Curitiba PR, 1984.

3. : POESIAS – COLETÂNEA. Artes Gráficas Editora Unificado, Curitiba PR, 1984.

4. MENDONÇA, RUBENS DE.: HISTÓRIA DE MATO GROSSO. Instituto Histórico de Mato Grosso, Cuiabá, 1967.

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2 comentários para “26 de agosto – aniversário da Cidade de Campo Grande – (MS)”

  1. caio disse:

    VOU TODO ANO A ESSA FESTA E MASSA DEMAIS

  2. caio disse:

    essa historia e muito boa

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